sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Clepsidra

Hora de dormir? Se a noite escorre às 1:27, se o vinho que consumi me consome, pequenas partículas no funda da taça, pequenos pensamentos no fundo da mente, grandes pensamentos num lugar mais afastado. Sou coração e artérias ou sou a régua e o compasso? Era uma sexta-feira para confissões e para o abraço, mas quero estar onde ninguém jamais esteve: encarando este ser estranho que mora no espelho, profundidades às vezes verdes, às vezes amareladas que me olham com insistência, convidando para um diálogo. Onde estão os filhos sem deuses? Os perdidos, os baroneses? Tome meu ossos e os jogue fora, de mim só quero a vida, sem choro para a morte, sem lágrimas desperdiçadas em êxtases vazios. Hearts of hard stone are falling from the sky, they're struggling for something, I don't know why or what. I'm just in my pace, looking for the hidden one, this substance in time we can't define, just feel like a soft breath behind the neck. I'm trembling and confuse but I have never been so clear, so clever, so high. Let's jump mountain to mountain, let's do what we want, dancing in owe to bonfires and ancient gods. It's taking our lives away, G. is being murdered slowly, a cell each day, he has been bleeding, he is so sad, so...  Friday. A friday for our brothers who's fallen. We'll never meet again, a lot of after life bullshit. But ces't la vie. Let's sleep, maybe dream

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Nihil aliud facit sensu me

Sei que fiquei pendurado naquela árvore fustigada pelo vento,
Lá balancei por nove longas noites,
Ferido por minha própria lâmina, sacrificado a Odin,
Eu em oferenda a mim mesmo:
Amarrado à árvore
De raízes desconhecidas.
Ninguém me deu pão,
Ninguém me deu de beber.
Meus olhos se voltaram para as mais entranháveis profundezas,
Até que vi as Runas.
Com um grito ensurdecedor peguei-as,
E, então, tão fraco estava que caí.
Ganhei bem-estar
E sabedoria também.
Uma palavra, e depois a seguinte,
conduziram-me à terceira,
De um feito para outro feito.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Desabafo do indizível

Tanta dor e tanta alegria que não posso compartilhar... ir levando a vida até que as coisas vão se resolvendo por nossa persistência, já que nascemos todos para morrer.


domingo, 3 de fevereiro de 2013

Um mergulho no céu noturno de nós mesmos

Eu amo.
Mergulhado dentro de mim encontro luzes dispersas, livros abertos, portas de pedra fechadas: a dor que consome é a mesma que as sela com sua amarga pungência. O Sonhador, Oneiros, joga grânulos de incenso e areia em meus olhos e me faz ter visões de deja vu misturadas a profecias e devaneios não concretizados. Eu amo a selvageria que exite em mim, esta vontade de me arraigar à vida como o verme que se agarra ao limo, a abelha que luta e se mata apenas pelo esforço de lutar. Amo o céu noturno, porque ele me dá as estrelas. Mesmo nos dias nublados, lembro-me delas, pálidas, solitárias, na vastidão do universo, como testemunhas perenes de nossa finitude. Lembro-me das estrelas como lembro do ventre materno. Em seus corações de fogo fui nutrido por alguns bilhões de anos, acalentado na fornalha cósmica... quem olha dentro de meus olhos muito de perto, vê a cintilação das estrelas, vê minha ascendência. Sou pouco, sou muito, um nada, um mito. Sou quem sou. Me alegro pelas dores e pelas lágrimas, como pelos risos e pelos brindes. Eu gosto mesmo de viver, a despeito de qualquer sentimento sobrenatural. Gosto de conhecer, saber e experimentar. Jogar o jogo, depois de lidas as regras. Ou aprender com a experiência e dar um dedo pro mundo às vezes. Metade de mim é uma busca solitária, a outra metade são alegrias inesperadas e coincidências intrigantes.

Me despeço com um adeus que não quer dizer nada mais senão um até logo.



"O tempo me diz para dizer adeus
E eu sabia que iria combater o inferno
E eu sabia: nós iríamos
Para nos vermos novamente
Para sermos livres novamente
Para nunca mais dizer adeus"

domingo, 30 de dezembro de 2012

Seguindo

O mundo não acabou, mas as pessoas insistem em dizer que o ano está acabando. Que 2012 está ficando pra trás e 2013 assoma no horizonte como uma promessa de dias melhores, regimes que serão cumpridos, mais dedicação ao trabalho, à escola, mais leitura e menos stress. Eu acho um pouco ridículo (antes achava só deprimente) se arvorar com expectativas de recomeços, novas chances, quando nada acabou, nada morreu. A vida só continua. Atribuímos demasiada importância a estas grandes mudanças: "virada" de ano, aniversários, feriados que comemoram atualmente o ócio coletivo com base em referências brumosas do passado. As mudanças que importam de verdade, são aquelas que forjamos lentamente dentro de nós mesmos, a ponto de se passarem cinco, dez, vinte anos da sua vida e perceber o quanto você mudou - pra melhor ou pra pior. Não digo isto de forma maniqueísta - ser bom ou mau, afinal de contas, o maniqueísmo, assim como tantas outras bobagens da cultura ocidental permanece como um conceito. Mesmo passados milênios, as pessoas ainda pensam que é uma questão de escolha imutável ser ética e moralmente "bom" ou "mau". Assim, o simbolismo da ressurreição - saudoso Campbell - apresenta um perigo real, de transferir o que é mito para o campo da realidade, sobretudo de uma realidade já ameaçada  pela virtualidade, pelos encurtamentos de distância e pelas cavernas de Platão das redes sociais. Pensar que o ano novo é uma oportunidade de recomeço pode nos escravizar à noção de que temos de arrancar parte de nós para satisfazer a expectativas irreais que criamos em nome do simbolismo. Eu prefiro a vida dos simples, a vida de cada dia que não espera o futuro com remorso ao contemplar o passado, como Whitman: "E não há nenhum negócio ou ocupação em que o jovem não possa se tornar um herói/ E não há nenhum objeto tão delicado que não possa servir de eixo para a roda que gira este universo/  E que todo homem ou mulher se mantenham calmos e serenos diante de um milhão de universos".
Vou seguindo, feliz, sem recomeços, sem expectativas, sem decepções: tudo depende de como se enxerga.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Confesso que bebi :)

O que torna este mundo definitivamente triste é o cinza. Cresci com a ilusão pueril de que o bem e o mal existiam separados, dicotômicos como a luz e a escuridão, o calor e o frio, a felicidade e a tristeza... Mas o mundo tem seguido por caminhos estranhos - há os que riem com as tragédias alheias e os que sofrem por causa do sucesso dos outros. Me ocorre que talvez o mundo tenha sido sempre assim, embora se enfeite o passado, como se lá atrás as coisas tivessem dado certo e, de repente, o mundo estivesse se desviando do bom caminho. A ganância e o egoísmo sempre existiram. O mundo não é realmente Tolkien e Rowling, mas sim George Martin e Cormac McCarthy. O mundo não é José de Alencar, é Luís de Azevedo. O mundo é cinza. Talvez a coisa mais acertada que o pequeno David fará toda a sua vida é esta, sob o efeito de sedativos: This is the real life? Os livros que mais amava me traíram ou, prefiro pensar, me deram a oportunidade de adiar o horrorshow que é o espetáculo dos duplipensantes atuando. Haja moloko nesta vida e viva Kubrick, Burton e Tarantino! Tinha pensado em tanta coisa para dizer sobre isto, mas parece simplesmente inútil acrescentar mais algo. Isso, basicamente, é o Demian de Hesse. :-/

domingo, 7 de outubro de 2012

O sono da razão desperta monstros

Tanto tempo sem escrever, porque a vida é um teatro de sombras. Se nos escondemos, se nos escondermos, se escondidos estamos, nossa sombra nos trai. Se o medo assusta, ainda assim a vida continua indiferente à dor dos desvalidos, dos enfermos, dos órfãos de esperanças. Sou silêncio porque falar é tolice em um teatro de sombras. Minhas manhãs são árduas, pois a decisão que pesa sobre minha cabeça a cada manhã, cada louca manhã, cada manhã de insanidades neste mundo, a decisão é também a pergunta mais antiga e ancestral de nossos âmagos: porque vivo? Tergiverso em verso e prosa porque, assim, quando estamos doentes é como se estivéssemos em um plano mais louco, alucinante, as idéias combalem-se, as defesas não defendem, o liquido amniótico, os leucócitos, as vacinas, tudo trai, tudo subverte os próprios princípios e ponho-me a pensar no sol na casa da minha infância, da aranha enorme que escorregava pelo muro no jardim, dos pés de manga e dos morros escorregadios, as lembranças mais antigas que possuo. E sombras de sonhos com rodas d'água e serpentes deslizando pelos rios, memórias ainda mais antigas ou réplicas de sonhos tão antigos quanto.

E se falo de sonhos, tenho falar de Morfeu, lorde moldador, Oneiros, o grande perpétuo, o trilhador dos caminhos descobertos, o figurante dos pesadelos do devorador, aquele que tem dentes em lugar de olhos. Percebo que eu sou ele quando me perco nos meus próprios devaneios à frente do espelho. Meus olhos são escuros quando ponho-me concentrado a enxergar o poço de loucura que são estes vitrais. As palavras se perdem em labirintos que foram traçados para pensamentos. Pois como poderão elas chegar ao outro lado para expressar algo que é só sensação, perda, alvitre e loucura?

Caminhei durante algum tempo pela senda da lucidez até perceber que ninguém está lúcido: todos jogam o mesmo faz de conta da felicidade enquanto eu me despedaçava para ver o mundo tal como sempre fora: justo e cheio de luz, os santos e anjos a proteger os humildes e os servos. Mas não. Demian. Este é o nome da linha cataclísmica que separa a inocência da verdade, a pureza da realidade, a luz e trevas do cinza confuso que é este mundo. Não compartilho Demian, porque Demian, ou qualquer outro nome que lhe dêem, será descoberto por cada um a seu tempo. Ou não.

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