sábado, 26 de novembro de 2011

Ha um universo imprescrutável entre minha cabeça e meus pés. Há amônia e água, carbono e ferro, brutos, ocultos, corre um rio de água e ferrugem por minhas veias. Delicio-me com tuas admirações, sorrio de teus defeitos e me perco pensando em novas formas de te convencer que ninguém é perfeito. Esta será a menor postagem da minha vida.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Falando nada sobre tudo

E o cinismo, onde fica? Soterrado por matéria cinzenta, o vazio das palavras ecoa como em montanhas perdidas, encerradas nos profundos oceanos de minha solidão. Destroço-me. Os navios repletos de razão e pólvora se despedaçam no caos de meu cais. Insano como o primeiro pedaço do primeiro fruto proibido. Quem cuidou de mim em minha infãncia? Quem velará por minha juventude? Quem velejará minha vida adulta? Eu respondo: ninguém! O übermann satisfaz-se na glória de sua própria solidão, a andar entre os picos das montanhas mais altas. Será loucura ou egocentrismo? Não! Reflexo somos daquilo que amamos e eu amo a prece silenciosa das folhas dos livros que vicejam ao vento como flores mortas e eternas. Flores de plástico. Rosas sempre vivas, acumulando poeira nos porões do inconsciente e incostante instante da partida, no limbo das memórias pueris. Sou um cara, um coroa, uma decisão aleatória, um jogo de sinapses. Sou humano, sou falho. Choro, rio e sei que ninguém jamais poderá me entender porque sou exatamente igual a todos. Partilho a solidão que me convenço a achar que ninguém sente. Sou um ser escuro e pálido, poeta, mentiroso, ladrão, corrupto, esperança dos enfermos, terror das noites. Sonhei em mim o sonho de todos os sonhadores. Escrevo em minha própria carne, com a tinta de meu próprio sangue e cada palavra é como ma lágrima na chuva. Perdida, jamais contemplada, entra tantas lágrimas de nuvens gordas e modorrentas. Mas sei que minhas lágrimas não valem mais ou menos do que a multidão de lágrimas. O que nos aflige é que a natureza é implacavelmente indiferente à insignificância do sopro efêmero que chamamos de vida. Assim é, era, será.
Se quiserdes trocar palavras, xingar-me, faz-me um favor, pois que sou eu? Um fantasma anônimo perdido entre bilhões de terabites indistintos. Sou o amor e a guerra, a criança intocada, o adolescente lúbrico e sedento, somos todos almas divinas. Um oceano de almas, uma sinfonia, um requiem de um sonho, o reflexo de um reflexo que porventura ousou sonhar Deus. Estarei aqui, perseguirei o sonho do sonho do sonho. Até que me faltem forças e o desvario tome conta, tentarei, preso à inflexão de meias verdades. Ah, como és infeliz, falso amigo, de palavras suaves e dúbias. Sussurro de aranhas que eu pensava estar guardado nos clímax de  livros impossíveis. Tu erras como se fosse um acidente, mas o único acidente de minha vida foi deixar-me destilar suas teias gordas e depressivas. Foda-te. Com uma ênclise parece mais educado.

sábado, 19 de novembro de 2011

Violões que Choram


Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
Soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.

Noites de além, remotas, que eu recordo,
Noites da solidão, noites remotas
Que nos azuis da fantasia bordo,
Vou constelando de visões ignotas.

Sutis palpitações à luz da lua.
Anseio dos momentos mais saudosos,
Quando lá choram na deserta rua
As cordas vivas dos violões chorosos.

Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.

Harmonias que pungem, que laceram,
Dedos nervosos e ágeis que percorrem
Cordas e um mundo de dolências geram,
Gemidos, prantos, que no espaço morrem...

E sons soturnos, suspiradas mágoas,
Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre remagens frias.

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Tudo nas cordas dos violões ecoa
E vibra e se contorce no ar, convulso...
Tudo na noite, tudo clama e voa
Sob a febirl agitação de um pulso.

Que esses violões nevoentos e tristonhos
São ilhas de degredo atroz, funéreo,
Para onde vão, fatigadas no sonho,
Almas que se abismaram no mistério.

CRUZ E SOUSA

Decepção

Não posso te esperar, achando que o futuro será brilhante e radioso como uma manhã de outono. Vivo alimentado por suas oscilações, oh lua informe.
Velut Luna És como a Lua
Statu variabilis, Mutável,
Semper crescis Sempre aumentas
Aut decrescis; Ou diminuis;
Vita detestabilis A detestável vida
Nunc obdurat Ora oprime
Et tunc curat E ora cura
Ludo mentis aciem                               Para brincar com a mente

Vamos parar por aqui pois antes mesmo de começarmos, a primeira coisa que dissemos foi que não queríamos nos machucar, não foi? E machuca jamais saber o que esperas, adivinhar teus desejos e viver pela tua vontade. Acreditei demais e tudo quebrou-se em tristeza e incerteza do que éramos a partir de então. É difícil ser amigo em uma situação destas, não existem linhas claras.
Como o primeiro beijo e tudo mais começou na chuva, parece que também acabou com a última chuva.
Já li um adeus, não vale a pena viver à mercê da sua carência.

Fui!


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Algos mea

A arte é uma forma de dor, a poesia é o sadismo das pressões brutas abruptas internas. Choram os homens e os jovens neste mundo imperfeito: a mulher é forte, a criança é inocente e o velho ri, por deixar a loucura do mundo aos seus descendentes, como uma forma secreta de vingança pelos anos perdidos. Eu rio pois sou minha própria ilha de caos, aqui, onde não há muros, ninguém penetrou; aqui onde repousa meu ajna, observo este mundo de secretas sendas a espreitarem, e vivo feliz na fortaleza de minha mente, onde tudo é diferente, como um universo mais real, sonhos vívidos e uma porta que estou prestes a abrir. Se não houvesse a fé que anima meus passos, se não fosse a força furiosa de minhas fibras, quem seria? Um nada assoberbado pelos próprios fantasmas, uma dor pulsando no canto da parede, lúgubre e lúbrico. Mas dou um passo e outro e são as pessoas que passam apressadas, tropeçando pelos caminhos oblíquos. Sigo, saint and sinner, sigo. Olho minha sombra que me olha no piso e sei que seu desespero está em um lugar inatingível como os portões dos pesadelos de Yume, a alva, a negra, a luz e a sombra de si mesma. A chave era só um acessório de sua fé, agora entendo Stephen King, o objeto é só acessório. A dor e o sacrifício, a fé na perda sem perda de fé é o sublime do humano. Somos como vermes, oh Dante:

"Que vermes somos não vos está provado,
De que surge a celeste mariposa,
Que incerta voa ao tribunal sagrado?

Por que do orgulho assim passais a meta,
Se sois insetos no embrião somente,
Vermes de formação inda incompleta?"
(A divina comédia - Purgatório, canto X)


Despeço-me em pedaços graúdos e de apenas uma vez:


Adeus

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Infinita Highway

video
Eu vejo o horizonte trêmulo, eu tenho os olhos úmidos
Eu posso estar completamente enganado
Eu posso estar correndo pro lado errado

domingo, 13 de novembro de 2011

Os Portos Cinzentos

As flores adejam como rotas rôtas, caem, como caem murchas, puídas, pulverizadas, mortas. A armadilha da rotina não me quer deixar pensar além destas superfícies débeis. Envelheci, é verdade. Como é verdade que o mundo seguiu girando, girando, girando com uma força tal que hoje tudo está como era. Acho que os enganei, pois todos me julgam uma película de serenidade. Assalto-me com a força que emana de meu desprezo pela mesquinhez humana, o ódio aos grilhões, as veias saltando de raiva do sistema. Sou um anjo de silêncio, alado de palavras. Minha foice foi-se com minha inocência, armei-me de placidez, como plácido é um horizonte de eventos, escuro e apagado. Espero. Espero que jamais caias no cais de meu vórtice, nas minhas prosas-poema, na lâmina que uso como caneta a dissecar as delicadas flores de suas ervas daninhas, os sofisticados mecansmos de seus parasitas cerebrais. Sou um monstro mascarado e quando você perceber, haverá pouco mais que apenas culpa. A ceia está posta, não se incomode se não foi convidada, criança da noite, cego noctâmbulo, poeta faminto. Tua fome é por algo que preste, algo que apenas naquele estranho estado entre a vigília e o sonho consegues palpar. Como um pássaro afogando-se e ouvindo a canção das gaivotas com saudade do mar e do Oeste. Do antigo Oeste. Mas os portos cinzentos foram apenas uma história, não? Ainda que os visse em meus sonhos antes de ouvir falar deles? Foram sonhos...? "Embora sempre vão passando/ Virá enfim o dia quando/ Sendas secretas seguirei/ Sem sol, sem lua eu partirei.". Te prometi uma rosa negra, mas acho que foi a última promessa que te fiz que jamais cumprirei, E. Por outro lado, você me prometeu coisas que não posso compreender. Onde errei, ou onde continuo errando diz respeito a mim. Não há portos cinzentos para mim, não agora. Mas um dia haverá. Na ocasião, talvez discutiremos algumas verdades que precisarão ser ditas. Vejo você em breve. O tempo é sempre breve.
Acima: O sonho da razão produz monstros. Quanta verdade, Goya!

sábado, 12 de novembro de 2011

O fugitivo

Ele corria. Se sua vida dependesse de correr, ninguém poderia dizer que ele já havia corrido mais em sua existência curta. Era uma farsa e ele sabia. Aquilo o apanharia inevitavelmente, inexoravelmente, era o fa(r)do dos homens encarar o destino comum a quase todos. Pois ele sabia agora que a alguns homens - bem poucos, é verdade - fora concebido a dádiva ou o anátema de não precisarem passar por isto. Mas ele sabia que não era um desses homens e nem sabia se queria ser, caso a oportunidade lhe fosse oferecida. Sua única certeza é que gostaria de adiar aquele encontro, pelo terror do desconhecido, dos abismos de sangue nos quais cairia vertiginosamente. Estendeu os dedos trêmulos até o frio copo de vidro sobre a bancada da pia e fez saltar a rolha da garrafa verde ao seu lado. Uma cascata rubra derramou-se naquele poço translúcido e o cheiro de madeira e pimenta passou vagamente entre suas lembranças. Três goles sedentos levaram sua mente a correr novamente em um labirinto de emoções confusas e fantasias difusas que misturavam o limbo do passado com visões de glória de um futuro incerto. Sua testa suava como se estivesse a correr no mundo real, mas o próprio mundo "real" era apenas uma carapaça de ilusões que sua mente tornava real. Então continuava a correr por desertos que eram a sobra de colisões entre as branas, de cores fátuas e cegantes. O nada que existia nos horizotes de eventos eram colinas de proporções confusas e impossíveis, onde, dizem, Ctulhu e Nyarlathotep criaram-se a partir do caos do universo primitivo e a escória de pequenos deuses caídos no último instante do big bang. A pressão era como dor em seu flanco, sentia-se tonto e louco enquanto seguia, tentando embrenhar-se cada vez mais em sua insanidade para não ter de encará-la. Ela, a terrível, a negra, a não vencida. Ouviu o barulho de um copo estilhaçar-se e o som de gotas vermelhas que cheiravam a aço oxidado caindo lentas como pequenos paraquedas de resigação. Emergiu com a sensação do inevitável. O dorso do seu pé vertia uma linha fina de sangue e ele levantou-se triste, as pernas confusas de vinho, pesadas, trôpegas. Três passos bastaram e estava no banheiro, com um vampiresco pedaço de papel higiênico a intumescer com seu precioso sangue. Levantou a cabeça vagarosamente, pois sabia o que esperar à sua frente. Olhou febril para o espelho e no refúgio de seus próprios olhos, ela acenou severa. Era chegada a hora de encarar sua consciência.

Acima: Esperaça na prisão do desespero, de Evelyn de Morgan

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Vinho rubro sangue

Vinho rubro sangue. Cereja, carvalho, chocolate e pimenta. Me tentas, me tentas, te bebo, te sorvo. Sofro. Sangue, vinho, dor. Há velas coloridas na árvore da vida, há brilhos espectrais sobre a cidade. O medo do escuro adormece o medo do que é real. Latência da semente, as veis saltadas, o êxtase e a culpa. Vivia dentro de mim, hoje sou feto. Inseto idoso, o cheiro das rugas cerebrais que pensam esparsas sobre a loucura da realidade. Quem sois vós, pequena Yume, Yume alva? Sou guardião da torre dos pesadelos, dos eixos dos mundos, arauto da insanidade, cadeado do Portão. A chave da aurora, que gira em movimentos pendulares, ligeiramente anômalos. A sinapse, a simbiose, uma flor, uma guerra, um útero. Quem somos? O que somos? Filhos de nossos próprios medos, senhores de ontem, escravos entusiasmados em seguir andando, correndo acorrentados, atados, juntos, sorrindo... como é bom que alguém nos mostre o caminho, como é fácil seguir feliz. Máscara, máscara, máscara. E a máscara da morte rubra dominava a todos.

Abaixo, uma livre interpretação de "A máscara da morte rubra", de Edgar Allan Poe


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O mundo segue...

Os dias tem sido longos e cizentos. Chuvosos, mas repletos daquela magia impermeável que nos dá vontade de rir pela incerteza de tudo, pela imprevisibilidade e pelos momentos que pareceram e pereceram negros, enterrados no passado. Todo mundo chora, todo mundo se machuca, diria o R.E.M.
Como isso é verdade... me parece que depressão tem sido um mal muito frequente e pouco diagnosticado em nossa sociedade de títeres. O vazio das vozes que ouço, o vazio dos abraços frios e das palavras mornas eventualmente nos desmotiva, mas o mundo segue em frente. E seguirá, não na realidade de Roland Deschain, espero, mas inevitavelmente seguirá em frente. Haverá dor e fome, mas haverá deleite e fantasia. O importante é como enxergarei minha vida enquanto ela passa. Que papel caberá a mim desempenhar na roda da Fortuna?



Acima um pedacinho de "Árvore da Vida", um filme honesto e despretensioso, mas épico, que nos faz lembrar da importância de nosso papel no grande esquema do Universo.
Música muito bem feita + filme envolvente + astronomia = PAIXÃO

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Dúvida

Eu só queria que você me dissesse com todas as letras se isto é um adeus ou um até logo. A dúvida consome mais fundo que a dor, o medo das palavras quebra mais que as próprias palavras. O amor parece ter sido um sonho de sílfide, teu carinho evaporou-se desiludido e a ausência do seu beijo deixou um gosto amargo na boca. Talvez eu não queira ter acreditado no adeus na primeira vez que o vi impresso naquela malfadada carta, como um sorriso irônico, insano, insensato. Mas agora vejo, mas agora venho com vinho que me mostra, atordoa, geme  e cala. Adeus, sonho do meu verão. Chega a primavera, sim, uma primavera chuvosa e primeva, e o inverno já se projeta no horizonte. Então adeus, canção suave do vento, adeus promessas caídas. Adeus, você. Te amei, sinceramente te amei. E continuarei sem te entender.
Te vejo por aí, meu bem.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Stormbrain

Sonhos quebrados, mundos que colidem... quadro inacabado, o futuro à frente fere. A surtida insana baila. Somos nós quem vivemos. Vivemos - quem somos nós? O deserto do real é uma folha ausente, a tinta esvaiu-se, as asas eram um sonho. Quem são aqueles homens que sobrevoaram meu sono? Seria aquela a torre negra, o eixo dos mundos, o êxodo dos mudos, o êxtase dos condenados? Não: era apenas o abismo, a casa negra, o talismã dos horores, a ignomínia tomada forma. Meu mundo é um livro, meu escudo é um livro e minhas armas são as palavras. Símbolos sobre símbolos. Maldita palavra, bendita palavra. Cria e destrói, fere e consola, exalta, humilha, abona, corrompe.
Estão caídos, os pobres coitados. Estão cegos como a névoa nefasta que paira sobre a dor da ignorância. Sou terno e vil, meus pensamentos tão secretos e infames, épicos, colossais. Judas. Julgas. Abstrais
.
"I am a man who walks alone...
And when I'm walking in a dark road
At night or strolling through the park"

Doses duplamente concentradas para mim.
Então,  o azul. Como sempre, começa com uma música e não foi diferente para Anansi, a deusa aranha.


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