quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Fragmento

Rafael caminhava com dificuldade pelo terreno acidentado. As marcas de pneus monstruosos, com quase dois metros de largura eram uma profunda cicatriz na lama que havia ressecado em uma argila dura e quebradiça. Vira aquele fóssil de alguma sociedade civilizada há dois dias, e o perseguira desde então, agarrado ao fiapo de esperança que o segurava na realidade. Caminhava há tanto tempo assim, que passara a falar sozinho, mas isso já fora há uma semana atrás. Percebeu aos poucos que quando mais se debatia em monólogos, menos entendia a si mesmo; não querendo cair no labirinto de espelhos que sua mente cansada produzia, tentava não pensar em nada enquanto andava. Água ou comida não haviam sido um probelma até então, pois vinha seguindo um córrego margeado por arbustos carregados de frutinhas azedas, cor de carne. Mas há dois dias aquelas marcas apareceram atravessando o córrego em uma ampla curva para o sudeste. Guarniu-se de tanta água quanto podia, bem como das frutinhas mais verdes que havia encontrado. O inconveniente era andar quase de frente para o sol. Choveu um pouco na primeira noite e ele sugou água das rochas e das folhas para reservar ao máximo seu estoque, mas estava convencido de que a formidável engenharia que produzira aquelas marcas não estava longe agora. Havia abundantes sinais de atividade recente, e neste momento encontrou cinzas quentes a fumegarem com restos de alguma ave assada. Ao tentar descobrir mais qualquer coisa, percebeu agora um ronco arrastado que já vinha ouvindo, mas para o qual não havia dado atenção. O ronco crescia...


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Senhor dos mares

Sou um Santiago perdido, ressequido pelo frigir das ondas e dos anos. Quis compartilhar sua dor com Rafael, a ausência do peixe a duras penas conquistado, o sonho que se desvanece lento no mar salobro, a semivida, a semimorte de Santiago, velho. Velho como me sinto agora, sob o peso dos anos novos e dos natais cheirando a bolor e mentira. Me desculpe, Rafa. Talvez alguns livros devam permancer em recantos úmidos de nossas mentes para serem esquecidos, não compartilhados. Há quatro livros que compuseram minha essência, talhando fundo minha alma, minha mente, meu espírito e meus sonhos. Quatro livros... "O velho e o mar", "A comédia humana", "Demian" e "1984". Talvez livros que jamais tenha citado ou discutido ou comentado com outras pessoas por serem tão íntimos, tão profundos e dolorosos como lágrimas arrancadas à força, aquelas lágrimas que só confiamos aos nossos travesseiros. Os quatro livros que apocalipsaram minha infância e me fizeram abrir os olhos. Com os olhos abertos, agora podia galgar os degraus de "Zaratrusta", "Pergunte ao pó", "O coração das trevas", "Macbeth", "Elogio da loucura"... entre tantos outros. GoT, SdA, Harry... isso é só diversão superficial. Um dia falaremos sobre as coisas grandes e ocultas nas vieiras da literatura universal. Por ora, ficamos aqui.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

A essência do erro

"Cada vez que você faz uma opção está transformando sua essência em alguma coisa um pouco diferente do que era antes."

Haverá então alguma essência? Somos diferentes de nós mesmos a cada segundo, então o que guarda meu "eu" entre o instante que acabou de passar e os segundos que levei para concluir esta frase?
Eu sou um monstro, venho de outras eras, minha solidão é minha pantera, que me afaga, estraçalha lento e dolor. Saber como os instantes correm, como as horas escorrem não torna minhas decisões menos penosas, mas acreditar em plano maior, no maktub, parece tornar as coisas mais fáceis pois nos isenta de uma reflexão de responsabilidade por nossas ações. A apologética nos dá o conforto do abandono a uma moral trascendente aos nossos julgamentos falhos, frequentemente expressos como a condição humana. O fator humano é o erro, que só é percebido por nossa capacidade de julgamento. O animal dito irracional reflete sobre as consequências de sua ação em um ambiente natural? é difícil imaginar que isto ocorra, pois neste caso, há o tudo ou nada da natureza, a lei do mais forte, ou ágil. No ambiente antroposférico, no entanto, me parece natural o erro e a montagem de sistemas teológicos, filosóficos ou científicos que justifiquem e aceitem o erro como inerente à condição dos seres reflexivos. Não seria, no entanto, a própria reflexão uma mutação, uma desviante de um padrão natural ubíquo que agrega o velo ao erro como algo desejável à integridade mental? A escolha baseada em julgamento cobra seu tributo com o passar dos anos, pois o homem e a mulher, em algum momento da tênue linha da existência se vê assombrado do rumo que sua vida tomou por causa da miríade de pequenas escolhas feitas. E então a apologética social nos envolve em um abraço imenso que ludibria geração após geração de pequenas peças fabris. Poucos vultos rejeitaram este abraço, mas nem por isso se viram mais felizes na imensa caverna de platão da sociedade moderna. Somos seres sociais, reprimidos pela compreensão do social de forma egoística, cataléptica, levemente cônscios de que o übermann já foi anunciado à face da terra e poucos o despertaram dentro de si. Nem estamos preparados para tal e, como Hari Seldon, antevejo uma inevitável convergência implosiva da escória da sociedade moderna como descrito em 1984 de Orwell. Vejamos o que 2012 nos dirá.

E tenho dito!


sábado, 24 de dezembro de 2011

Nove noites

Há nove noites atrás fiz minha última postagem... o final de ano sempre tem um gosto melancólico pra mim.... como se fosse o final de um ato, o descer das cortinas para que novos personagens se apresentem, o cenário mude e não tenho certeza se gostarei das representações do novo ano que se inicia. Frente a isto, cada passo se parece mais com uma jornada no escuro, uma incursão no incerto e derradeiro futuro. Que fazer? Se Deus nos deu as dúvidas e a capacidade de escolher de acordo com nossos julgamentos falhos de humanos, não há fórmulas ou receitas que nos motivem, a não ser nossa própria compreensão de que temos muito por fazer ainda segundo nossos dons. O que será que 2012 reserva para mim e meus amigos? Quantas lágrimas, quantos risos, quantas pessoas e experiências novas estão desenhadas no horizonte?
Estouconfiante, porque talvez minha maior qualidade seja acreditar que as coisas sempre darão certo, até porque não é o pessimismo que fará com que as coisas aconteçam de forma diferente. Aceito minhas alegrias e minhas tristezas crente de que não serão eternas e aprendendo lições valiosas a cada tropeço. Talvez a melhor coisa que eu possa desejar para meus amigos, meus colegas, meus conhecidos seja uma boa dose de otimismo e uma côdea de esperança não em 2012 que começa, como algo novo, como uma virada, mas sim em nossas vidas que continuam independente de pensarmos em termos de dias ou meses ou anos novos que virão. Vamos pensar nela como uma grande linha, e entrelaçar nossos risos às linhas daqueles que amamos ou não.
Se Deus me deu etsa vida efêmera sobre a terra, promete dar o melhor de mim, enquanto humano, para fazer felizes as pessoas ao meu redor e tornar este mundo um pouquinho melhor.

Feliz Vida a todos vocês!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Lascado em Banda. O título foi uma sugestão de Rafael Karaoglan

Sou um homem.

Meus olhos tem um brilho superficial de tédio, mas minhas visões são longas e compassadas, discretas e precisas, dissecando o que precisas, intuindo onde te perdes, meu bem. O amor era uma palavra boa antes de pronunciá-lo, mas parece que você achou tudo complicado demais. Sou simplista, não gosto de muitas variáveis, para que melhor equação do que tua boca mais minha boca? E subtraíamos os pequenos erros, dividíamos o cansaço das horas e tudo foi simples e bom. Agora boas são as memórias e vazio é meu lábio, pois teu amor foi um turíbulo incandescente a ofuscar o altar do meu coração, que jaz num caos de iconoclasta.
Não eras minha, como eu não era teu, mas às vezes penso que envelheci trinta e sete anos e dois meses, quando minha carteira de identidade sugere vinte e dois e lembro que sou jovem e ainda iludo-me com um mundo bom e justo, que as pessoas só erram sem querer, que haverá um cerne de justiça e luz sob esta membrana de miasma.

Sou um homem.

Sempre estou com dois anos a mais de ingenuidade do que aqueles que me cercam, mas, já disse, enxergo fundo no coração de homens e mulheres. Quando eu dizia por favor, teu silêncio me abraçava voluptuso, tratando-me como a um gasper sedento por dor. Entendi. Quando meu silêncio passou a dialogar com o teu, então penetrei fundo em tua alma, vasculhei teu coração e descobri que não querias alguém do teu lado. Querias um olho, um ombro, um apoio. Metade de mim, apenas. Meia boca, um ouvido, metade das minhas lágrimas e dos meus sorrisos só pra você.
Mas te amei, nos amamos e foi bom e certo.

Sou um homem. Inteiro.


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