domingo, 30 de dezembro de 2012

Seguindo

O mundo não acabou, mas as pessoas insistem em dizer que o ano está acabando. Que 2012 está ficando pra trás e 2013 assoma no horizonte como uma promessa de dias melhores, regimes que serão cumpridos, mais dedicação ao trabalho, à escola, mais leitura e menos stress. Eu acho um pouco ridículo (antes achava só deprimente) se arvorar com expectativas de recomeços, novas chances, quando nada acabou, nada morreu. A vida só continua. Atribuímos demasiada importância a estas grandes mudanças: "virada" de ano, aniversários, feriados que comemoram atualmente o ócio coletivo com base em referências brumosas do passado. As mudanças que importam de verdade, são aquelas que forjamos lentamente dentro de nós mesmos, a ponto de se passarem cinco, dez, vinte anos da sua vida e perceber o quanto você mudou - pra melhor ou pra pior. Não digo isto de forma maniqueísta - ser bom ou mau, afinal de contas, o maniqueísmo, assim como tantas outras bobagens da cultura ocidental permanece como um conceito. Mesmo passados milênios, as pessoas ainda pensam que é uma questão de escolha imutável ser ética e moralmente "bom" ou "mau". Assim, o simbolismo da ressurreição - saudoso Campbell - apresenta um perigo real, de transferir o que é mito para o campo da realidade, sobretudo de uma realidade já ameaçada  pela virtualidade, pelos encurtamentos de distância e pelas cavernas de Platão das redes sociais. Pensar que o ano novo é uma oportunidade de recomeço pode nos escravizar à noção de que temos de arrancar parte de nós para satisfazer a expectativas irreais que criamos em nome do simbolismo. Eu prefiro a vida dos simples, a vida de cada dia que não espera o futuro com remorso ao contemplar o passado, como Whitman: "E não há nenhum negócio ou ocupação em que o jovem não possa se tornar um herói/ E não há nenhum objeto tão delicado que não possa servir de eixo para a roda que gira este universo/  E que todo homem ou mulher se mantenham calmos e serenos diante de um milhão de universos".
Vou seguindo, feliz, sem recomeços, sem expectativas, sem decepções: tudo depende de como se enxerga.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Confesso que bebi :)

O que torna este mundo definitivamente triste é o cinza. Cresci com a ilusão pueril de que o bem e o mal existiam separados, dicotômicos como a luz e a escuridão, o calor e o frio, a felicidade e a tristeza... Mas o mundo tem seguido por caminhos estranhos - há os que riem com as tragédias alheias e os que sofrem por causa do sucesso dos outros. Me ocorre que talvez o mundo tenha sido sempre assim, embora se enfeite o passado, como se lá atrás as coisas tivessem dado certo e, de repente, o mundo estivesse se desviando do bom caminho. A ganância e o egoísmo sempre existiram. O mundo não é realmente Tolkien e Rowling, mas sim George Martin e Cormac McCarthy. O mundo não é José de Alencar, é Luís de Azevedo. O mundo é cinza. Talvez a coisa mais acertada que o pequeno David fará toda a sua vida é esta, sob o efeito de sedativos: This is the real life? Os livros que mais amava me traíram ou, prefiro pensar, me deram a oportunidade de adiar o horrorshow que é o espetáculo dos duplipensantes atuando. Haja moloko nesta vida e viva Kubrick, Burton e Tarantino! Tinha pensado em tanta coisa para dizer sobre isto, mas parece simplesmente inútil acrescentar mais algo. Isso, basicamente, é o Demian de Hesse. :-/

domingo, 7 de outubro de 2012

O sono da razão desperta monstros

Tanto tempo sem escrever, porque a vida é um teatro de sombras. Se nos escondemos, se nos escondermos, se escondidos estamos, nossa sombra nos trai. Se o medo assusta, ainda assim a vida continua indiferente à dor dos desvalidos, dos enfermos, dos órfãos de esperanças. Sou silêncio porque falar é tolice em um teatro de sombras. Minhas manhãs são árduas, pois a decisão que pesa sobre minha cabeça a cada manhã, cada louca manhã, cada manhã de insanidades neste mundo, a decisão é também a pergunta mais antiga e ancestral de nossos âmagos: porque vivo? Tergiverso em verso e prosa porque, assim, quando estamos doentes é como se estivéssemos em um plano mais louco, alucinante, as idéias combalem-se, as defesas não defendem, o liquido amniótico, os leucócitos, as vacinas, tudo trai, tudo subverte os próprios princípios e ponho-me a pensar no sol na casa da minha infância, da aranha enorme que escorregava pelo muro no jardim, dos pés de manga e dos morros escorregadios, as lembranças mais antigas que possuo. E sombras de sonhos com rodas d'água e serpentes deslizando pelos rios, memórias ainda mais antigas ou réplicas de sonhos tão antigos quanto.

E se falo de sonhos, tenho falar de Morfeu, lorde moldador, Oneiros, o grande perpétuo, o trilhador dos caminhos descobertos, o figurante dos pesadelos do devorador, aquele que tem dentes em lugar de olhos. Percebo que eu sou ele quando me perco nos meus próprios devaneios à frente do espelho. Meus olhos são escuros quando ponho-me concentrado a enxergar o poço de loucura que são estes vitrais. As palavras se perdem em labirintos que foram traçados para pensamentos. Pois como poderão elas chegar ao outro lado para expressar algo que é só sensação, perda, alvitre e loucura?

Caminhei durante algum tempo pela senda da lucidez até perceber que ninguém está lúcido: todos jogam o mesmo faz de conta da felicidade enquanto eu me despedaçava para ver o mundo tal como sempre fora: justo e cheio de luz, os santos e anjos a proteger os humildes e os servos. Mas não. Demian. Este é o nome da linha cataclísmica que separa a inocência da verdade, a pureza da realidade, a luz e trevas do cinza confuso que é este mundo. Não compartilho Demian, porque Demian, ou qualquer outro nome que lhe dêem, será descoberto por cada um a seu tempo. Ou não.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Sobre o Sonho e a Morte

Hypnos e Thanatos carregando um cara
Hypnos e Thanatos carregando um cara
As vozes dos mortos me chamam sutis, as vozes daqueles que já se foram e legaram o esforço dos heróis e dos mártires à minha fibra. As vozes daqueles que me emprestaram suas reflexões, suas idéias e ideais quando repousaram na frialdade acolhedora da terra, da última morada no húmus indiferente que a todos recebe e a todos hospeda. Minha voz não pode ser fraca nem minhas convicções vacilarem quando as vozes dos mortos sussurram bem perto do meu ouvido que preciso fazer jus à sua herança. Esperança nos sonhos, determinação a um futuro sem lei, ao Ka, à sina, ao carma, à Vallhala. Tudo o que nos impulsiona é o sonho daqueles que vieram antes de nós, nos projetando um pouco mais à frente na história. O sonho dos mortos repousa em nós. Hypnos e Tanathos são irmãos gêmeos desde que o homem aprendeu as sutis artes das enganações, das mitologias que contêm a força de todos os sonhadores, de todos os inconscientes e todos os arquétipos já imaginados. A superfície da realidade muda constantemente, há plástico, há eletricidade, há redes invisíveis que conectam tudo, todos, instantaneamente. Mas a verdade mais profunda do mundo não se molda. Há tricksters, há deslealdade e ambição desmedida. Mas há dança, música e trovadores. Trovo em um teclado ordinário de plástico e silício, mas o papel ainda tem o mesmo apelo, pois minhas próprias letras mudam o significado do que escrevo. Poe e Augusto dos Anjos estão mortos. Baudeleire, Dumas, Whitman. Mas os corações dos poetas subvertem os corações jovens para exprimir tudo o que não conseguiram em vida. Neitzsche ainda apela, Goethe ainda finaliza e reconta Fausto. Dante está em uma floresta escura. Beatrice jaz. E eu solidarizo-me e solitarizo-me na imensidão do mundo que busca uma resposta para a vida, o universo e tudo mais (42). Não desanimemos, pois os mortos ainda inquietam nossos espíritos e nos movem para frente.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Dia do Rock - A catarse da música, a dor da vida.

Viver não é fácil. A vida é uma grande peça encenada por atores mascarados, melífluos, sacanas. Os amigos são poucos, o dinheiro é sempre pouco e às vezes perdemos o sentido de tudo. E o rock, entra aonde? Exatamente aí. Onde as deseperanças confluem, quando o fardo do destino nos parece demasiado pesado, como se fôssemos programados para sofrer, o rock é uma catarse. Uma palavra que eu adoro, que expressa ao mesmo tempo a libertação dos desejos primevos, a sintonia com o todo, a purgação das culpas, o esquecimento das mentiras e o redescobrimento de uma alegria pulsátil e selvagem, adormecida entre as civilidades cotidianas. Rock é isso, um grito que sai, uma alma liberta e incontestável pulando de montanha em montanha, como diria Nietzsche sobre a übermensch. Quando eu o ouço, quando me concentro nele, ele me envolve denso e puro. Sinto-me trasportado ao centro do universo, ouço a canção das galáxias se formando, viajo, piro, minhas pernas são pedestais pro meu ser insustentável, minha boca sente o gosto do som, meus ouvidos e meu coração passam a ser um só com o estridor da bateria, os riffs das guitarras soluçantes e o clamor rouco do baixo. Eu sou outra pessoa, eu sou todo mundo. Algo cresce em meu peito, se expande se eleva e me enleva como uma melancolia gostosa, um saudosismo justificável e a certeza da superação. O rock é uma tatuagem morna nas costas que faz-me esticar a coluna e sentir as pupilas dilatando-se lentamente à meia luz, o ar ficando mais rarefeito e mais puro. Another brick in the Wall, Satisfaction, I wanna be sedated, Stairway to heaven, Back in Black, Civil war, Crazy train, the Pretender, There is a Light that Never Goes Out, In between days. Shoul I Stay or should I go. Rock, rock, rock! Não procurem pelo rock por aí, ele corre aqui pelas minhas veias e talvez corra pelas suas, mas uma coisa eu garanto, ele não está por aí afora. Ele está aí dentro, ou não está. Mas o rock, como as grandes coisas da vida é difícil de ser determinado e ficar comedido a descrições tangentes. O rock, indiscutivelmente é pra ser vivido! Feliz dia do Rock!

sábado, 23 de junho de 2012

Under skin ou under schin?

Aqui, meio alto, ouvindo músicas velhas de São João com velhos amigos que mal reconheço, bebendo schin - não gosto de schin - sob o impacto de me perceber o últimos de meus amigos solteiros, crente que estudar é um projeto de vida, crente de que está cedo demais para ter filhos, crente que o mundo é um lugar bom, reconheço a farsa de cada uma das minhas crenças. Sou ingênuo, sou uma criança que engatinha despreocupada pela orla da praia enquanto as ondas salgadas da realidade me lambem e fazem meus olhos lacrimejarem. Sou um pequeno idiota que acredita que a vida deveria ser justa com os justos, que as confluências psicodélicas de meus delírios seriam frutos de mim, apenas eu, nu. Procuro um sentido. Só isso. Sob minha pele o eterno medo de um fututro impalpável, de um passado de vapor. Digito com dedos dormentes. Basta um copo de cerveja e meus dedos adormecem com minha língua, conspiram um jogo engraçado e sem nome. Pensamentos sem sentido me assaltam, Stephen King, Bukowski e Tarantino. A torre negra, a casa sem nome, o eixo dos mundos deve estar em uma dimensão próxima. Se alguém conhecesse uma das irmãs de Sandman, vulgo lorde Moldador, como eu conheço, se arrependeria de buscar ou almejar o conhecimento, pois ele é o escárnio de Mefistófeles a nossa tentativa patética de abarcar a realidade com nossas mãos pequenas. Já volto.

Levanto, vou ao banheiro e o mundo gira. Sempre que penso em mijar, me lembro de Anne Rice e dou risada sozinho. Sou louco, sei que sou. E só quando bebo um pouco reconheço esta verdade fundamental em minha vida, a verdade pela qual tenho medo de falar a alguém que a amo, sabe? Porque minha vida é loucura. Não minha vida de mentira, a vida de trabalhar, ser um enfermeiro responsável, um irmão gente boa, um filho legal, um amigo, um nerd. Falo da vida profunda que só eu conheço, da vida que é como uma película profunda abaixo da pele, um borbulhamento que nasce do âmago e conhece a raiva, a hipocrisia e a verdade dos nomes das coisas. Assim, me perdoe, L., se eu nunca disser as palavras que você quer e merece ouvir. Me perdoe por ser louco, esquizofrênico, esquizóide, borderline. Espero que tenham entendido o trocadilho do título, porque agora, meio alto, ele me faz todo o sentido, mas não tenho certeza se ainda será assim quando eu acordar. Se houverem erros de português, vão à merda, agora não posso me preocupar com isto.

domingo, 22 de abril de 2012

Under Pressure ou Silenciosa Prece ao sr. Sandman

O reflexo pálido da lua desliza sobre a untuosidade do asfalto negro e a noite é fria e tem cheiro de terra molhada e folhas apodrecendo... o doce cheiro da terra! Assim como caminham as nuvens indolentes pelo veludo negro do céu; na terra só suas sombras caem sobre mim e me lembram que aqui tudo é mais concreto e menos poético. A nous, o impalpável, o inatingível são forças ocultas que sopram com força dentro dos meus ouvidos abertos, dentro de meus olhos e minha boca abertos e enchem minha cabeça de idéias lepidópteras, esvoaçantes, tontas, contra as paredes cerebrais. Eu sou assim. Sou o jovem e o velho. Cedo em minha vida já era tarde demais. Sou um ancião aprisionado em dúvidas juvenis, sou uma máquina, uma lâmina, um barômetro. Em mim, as pressões sociais se acumulam e as palavras trespassam minha minha couraça de serenidade e senilidade. Sou um parafuso, uma roda. O olhar atento sobre o paraíso de Milton, os círculos infernais de Dante e tudo o que a vã filosofia de Horácio não quis acreditar. Pois somos dramas e comédias tão entrelaçadas, tragédias tão bem cosidas, que somos cebolas: cascas dentro de cascas e máscaras sobre máscaras. E o trabalho repousa com suas arestas de granito sobre meus ombros de Atlas. Meus braços são brutos e calejados, mas minha voz é doce, melíflua, refinada, tímida e recatada. Minhas palavras são poucas, mas pari-las dói tanto quanto os sonhos amargos que nos dão sede e nos acordam suados no terror solitário da madrugada (Cthulhu chama, chama e chama). O mundo não é bom nem justo, eu sei. Mas ainda que eu saiba, isto não torna mais fácil minha tarefa de enxergar um caminho seguro neste mar de lama, neste oceano de almas.  Por isso é mais fácil e doce o abandonar-se aos sonhos, à literatura fantástica, ao reino intangível de Morpheus, vulgo Sandman, Lorde Moldador, Oneiros, irmão da Morte e do Desespero, do Delírio e da Destruição. Do Destino. Do Desejo. Lança-me esta areia em meus olhos com força, sopra até que eu durma os sonhos das crianças e não me preocupe tanto. Tudo só faz sentido a quem escreve, tudo é belo, certo e esteticamente justo a quem pare estas palavras, como as mães e os frutos de seus ventres. Como o pintor e o eletricista. Como Whitman e seu corpo elétrico. Durma em paz, Whitman. E faça-me dormir também, Sandman.

domingo, 15 de abril de 2012

O labirinto de Hamlet

Ouça-os gritar e preste atenção nos gemidos lamurientos que sobem dos portões das minas de carvão: eles são os filhos da terra, eles são os filhos e filhas de Zola, contidos nos mistérios minerais das profundas entranhas de sua mãe. Um arquejo, um mergulho no escuro e resta pouco mais do que um oitavo de luz da qual se serve Bastian para achar suas últimas memórias, seu último sonho com as lâminas de Yor, o mineiro cego. Nossa vida será assim, como uma procissão de fantasmas, uma profusão de sangue derramado e desejos insatisfeitos e muitas metas novas, poucas das quais reais o bastante para emprestar significado à busca diária da perfeição. Catarse, catarse, catarse. Vomito estas indolências da insônia porque meus dias são curtos e minha esperança é grande, meus sonhos são do tamanho do meu mundo. E cada vez descubro que o mundo é maior, sempre maior, tudo se dispersa, se ramifica e o universo de expande. Sempre além, sempre adiante, cada passo é uma nova distância, um afastamento da origem, um jogar-se nos penedos escuros do caos. (E a Máscara da Morte Rubra dominava a tudo). A Morte Rubra e seu interminável relógio, seu necrológio das artes arcanas e dos príncipes sacanas, ébrios, tontos, despedaçados a se cercar de muros e concreto contra sua própria condenação. Ou isso, ou os plebeus, os ingratos, os perjuros o cercaram contra o muro das admoestações vazias. Tenho sangue tanto quanto sono, mas a sede de meu sangue é por elocubrações dionísicas que encontro acordado e a sede de meu sono é pelo repouso da mente, a consideração apolínea de que há razão e a razão é pura, bela e harmoniosa. Quem há de passar pelas barreiras de meu pensamento? Quem olhará pela brecha desta sebe para berceber que meu labirinto só tem um corredor, mas muitas portas?

Ninguém, eu digo, ninguém. Uma cama de pregos, aí repousa minha sanidade. Um fosso destinado aos indigentes, aí escondi o que havia de compreensível de mim. Hoje sou uma superfície tranquila de gelo, embaçada, confusa, desfocada. Mas por dentro sou águas claras e morte gelada: este é o preço por toda a verdade, o olho de Wotan, a caixa de Pandora, o fígado sempiterno de Prometeu. Só a procissão dos fantasmas dos filhos da terra e Zola me compreendem, pois sua escuridão é maior que a minha e suas mortes sorumbáticas ecoam a corda secreta do anonimato e vibram os brônzeos sinos da sina do eterno retorno: morrer, cada vez que alguém os ler.

domingo, 8 de abril de 2012

Considerações sobre as Religiões

 É chegado o momento da verdade. Não as verdades pequenas que encontro entre o deslizar silencioso dos ponteiros dos relógios. Aquela verdade mais fundamental que tem o poder de uma revelação estrondosa e ubíqua, que momentaneamente nos faz parar de respirar e pensar sobre qual o significado que nossa vida teve sem aquela revelação em especial. Como o espinho arrancado à carne, a venda aos olhos, as algemas aos pulsos, alguns descobrimentos nos sangram fundo. Alguns, veja só, tocam em fios tão delicados e profundos que pareciam misturados à nossa própria essência. Mas em verdade não é assim. A verdade é que fomos ensinados a pensar de certa forma, e romper com o que queriam que pensássemos seria também romper com todos os que pensavam da mesma forma: os amigos, a família, os colegas e os pares. Tudo o que está dentro da mesma lógica. Ninguém me disse, ninguém jamais, neste 22 anos de existência, mais ou menos 1/4 do que posso esperar viver, nenhum ser humano jamais me disse que os dogmas são justamene isto: dogmas, o que significa um princípio que você tem de aceitar sem discussão, sem prova, sem inteligência que te leve a ele.  Por isso minha doutrinação quando criaça foi tão cruel. É como se vivesse a maior parte de minha vida ignorando um parasita arraigado a mim, que me consomia em dúvida e culpa, porque minha culpa vinha da própria dúvida em saber se aquele parasitinha me sussurrava a verdade.
E vivi meio feliz, meio ignorante, até me dar conta de que existem muito mais parasitinhas diferentes, habitando e coabitando diferentes cabeças, com idéias diferentes sobre o que é certo e errado. E o ovo primordial de onde vieram estes bichinhos, semelhantes e diferentes como o podem ser os nematódeos e os platelmintos, o ovo da superstição, fazia até sentido quando vivíamos nas cavernas longe da luz da razão e do método científico. O fato é que esta fauna exuberante, hoje só encontra sentido em perverter os poucos bons princípios que deles derivaram para perpetuar um comensalismo sem precedentes, uma jihad em espiral de religiões contra religiões e denominações contra denominações... e fomentam a xenofobia, o racismo, a discriminação. O outro fato é que, embora em pequena escala as religiões arquitetem-se de forma harmônica com a maior parte de sua comunidade, em uma escala macrológica, subvertem sua moralidade de acordo com o que é necessário ou desejável à sua própria sobrevivêcia. Os dogmas sobre os quais se assentam, na verdade, não são tão absolutos quando me fizeram pensar... estão sujeitos à intervenção oportuna de novas e sutis interpretações. A religião tem um poder avassalador, que sou realmente tentado a imaginar como Jonh Lennon... um mundo sem religião... sem talibã, sem 11 de setembro, sem o Holocausto, sem a Inquisição, sem a Klu Klux Klan. A religião é uma força enorme, dirigida frequentemente por pessoas sem escrúpulos, ou, na melhor das hipóteses, tão falhas quanto eu ou você. A diferença é que minhas falhas são questionadas e não afetam a vida de milhares de seguidores que, por sua vez, diz respeito a outro milhar de não seguidores de determinada doutrina. Levei tanto tempo para enxergar a clareza deste argumentos e me admoesto sobre os pensamentos e comportamentos pouco humanistas que tive em nome da minha superstição. Minha única desculpa é a ignorância que me vendou de forma tão eficiente, tão absolutamente completa como o grande Irmão de 1984 e a crimidéia subjacente que se instaurou quando precisei pensar, ao invés de entender o enviesado caminho o duplipensar. Saí da Matrix e nunca me senti tão bem, tão satisfeito e tão humano.

quinta-feira, 15 de março de 2012

O Mundo de Sophia

O mundo era tépido e macio, povoado pela meia-luz e por palavras abafadas, quase sussurros de Nino e Jéssica dizendo o quanto a amavam, dos tios fazendo vozes idiotas, mas engraçadas, expressando o quanto a queriam ver, de como sua ultrassonografia era linda, de como seu coração batia forte, com vontade de viver. Nos olhos de seus pais, desde cedo brilharam o desejo e a ansiedade; em um, uma alegria sem fim, algo insondável como o adulto que se descobre, se transforma por querer ser assim, atencioso, companheiro. Um pai. E a outra... haverá algum adjetivo para descrever a graça que a mãe transborda quando se percebe mãe? A menina rediviva em mulher. A dor nas costas, nas pernas, uma dor de medo imaginando se será uma boa mãe, uma dor que ama e acolhe o sacrifício como um preço pequeno por ter dentro de si a carne de sua carne, o sangue de seu sangue, o fruto do seu amor.
Os meses intermináveis começaram a enfim se transformar em dias curtos, pensar em você não era mais apenas imaginar... era ver uma barriga enorme crescendo a cada dia e sentir seus chutinhos e sua inquietação para saber o que havia do outro lado, de onde vinha o calor daquelas vozes que a chamavam de filha e te amavam antes mesmo de te conhecer.
Sophia.
Como um sopro morno, seu nome foi concebido. Não mais uma Maria, Joana ou Gabriela. Haveria no mundo mais uma Sophia, aquela que sabe, conhece, investiga. Que sabe o quanto foi amada desde quando era apenas um pequeno grão (tão pequeno quanto o Pequeno Grão que sua mãe foi um dia) e as únicas evidências de que você já existia eram uma listrazinha em um teste de farmácia e a risadinha nervosa dos seus pais.
E foi assim, até que em uma tarde na qual o Sol brilhava forte e as nuvens passeavam vagarosas no céu, você veio ao mundo. Precisaram tirar você de lá porque pelo visto você não queria abandonar seu ninho, mas tinha muita gente querendo te ver! E você veio como o milagre indescritível da vida sempre faz: como um pequeno sonho que brota de nossos anseios, com seus dedinhos de unhazinhas tão pequenas... seus olhinhos e seu narizinho, a boquinha miúda e os lábios carnudos e vermelhos. Perfeita, vermelhinha, faminta. Mas não da fome do leite, apenas. Mas sim a fome de estar perto dos que te amam, tanto, aconchegar-se no colo da sua mãe, sentir seu pai trocando, com um leve desespero, suas fraldas, ouvir os mimos intermináveis de seus avós e as orações que todos sussurram para que você cresça bem, saudável, faminta de conhecimento e plena pelo amor de seus pais.
Sophia, obrigado por ter vindo ao mundo, porque você me faz lembrar que ele continua girando, novas vidas vem à luz e precisamos reafirmar com nós mesmos o compromisso de sermos melhores por aqueles que amamos. E eu te amo, minha pequena sobrinha, porque você faz de seu pai, meu melhor e mais antigo amigo, meu irmão, você faz dele a pessoa mais feliz neste mundo.

segunda-feira, 12 de março de 2012

A Caixa de Pandora

O único imperativo da vida é ser uma eterna surpresa. Acredite você na organização de um poder maior determinístico, acredite neste mesmo poder, contraditoriamente ligado ao livre arbítrio, ou acredite em nada, apenas no caos puro e simples. O fato é que o curso de nossas ações depende de uma cadeia tão grande e intrincada de pequenos eventos, em última instância, aleatórios, que a única genuína surpresa no mundo aconteceria se ele não mudasse. Mas o mundo muda. As pessoas mudam, as amizades mudam e, para o bem ou para o mal, nos moldamos mudando as coisas ao nosso redor.
Mudar é uma palavra difícil e pesada. O único motivo pelo qual suportamos as mudanças é que as genuínas mudanças são lentas, embora inexoráveis. O tempo é a variável da mudança, o tempo e o espaço. E os livros, estes abrem uma ferida no tempo e no espaço: ouvimos as vozes dos mortos e conversamos com universos que jamais existirão. Reforçamos conceitos, valores ou trilhamos pequenos passos para a mudança, porque reconhecemos neles, estas pequenas bestas de papel, nossa própria condição de mutantes. Heráclito disse (ou pelo menos é o que dizem que ele disse) que ninguém pode entrar no mesmo rio duas vezes. Eu, particularmente, nunca tive a oportunidade de entrar em um rio de verdade. Mas entrei em muitos livros diferentes muitas, muitas vezes. Já aconteceu de eu entrar em determinado livro e alguns anos depois, entrar em um livro com o mesmo título, a mesma capa, as mesmas páginas e as mesmas palavras, mas completamente diferente. E hoje, ouvi de alguém completamente improvável que o peso da sabedoria frequentemente nos cobra um pesado tributo da insegurança. Mas o que a sabedoria e a insegurança tem a ver com tudo o que disse antes? A sabedoria, que neste caso estava empregada como racionalidade, não prepara ninguém para a mudança, porque a  a condição sine qua non desta é justamente alicerçar ganhos inesperados em determinadas direções. Ao contrário, a racionalidade tende a tornar nossas opções redutíves a variáveis que perdem parte de seu sentido enquanto conjunto. Toda escolha é um passo mais profundo na mudança e aí, quando percebemos, não somos mais quem costumávamos ser (...nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não...).
E como isso se relaciona com o título deste post? Seja livre para tirar suas próprias conclusões e exercer o direito de escolher a justificativa que faz mais sentido para você.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Blog de cara nova!...

...E a portentosa mão do destino continua a dedilhar indiferente as cordas de nossa vida. Isto, meus amigos, é rock!


Valeu pela homenagem, Rafa!

domingo, 4 de março de 2012

Eu, navegante

Quando eu me cavo eu me surpreendo tanto...
Por isso observo mais do que falo.
Calo. Silencio.
Como a quilha dos navios dos primeiros homens,
deslizo quieto entre as vagas, minha paz é escura como o céu da noite.
Minha voz esconde mais do que mostra, guarda intacta, aguarda.
Uma palavra, um abraço, uma dor de vez em quando.
Ninguém chegará ao meu porto,
As tochas sobre o farol há muito se abandonaram ao vício das próprias chamas.
O sal, a espuma e a água escura cantam roucas serenadas, o vento e as gaivotas assobiam um requiem que só eu conheço e começa com sabor de infância.
Suas vozes são terríveis, mas sábias e verdadeiras. A verdadeira angústia de quem vive é deixar de ouvir o próprio coração.
Por isso observo mais do que falo.
Calo. Silencio
 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Considerações sobre a Fome

Tenho fome.

Talvez seja inútil discutir sobre a fome que tenho, a voracidade que sinto, pois a fome é a própria alma do homem. O instinto, o desejo. Despido de rótulo e título, só o que resta é a fome. Trabalho porque tenho fome. Não só a fome que consome a comida, que consome a vida, o tédio, a dor. Minha fome é mais sutil: às vezes um livro, um beijo, um abraço, um arquejo sobre a ponte, uma fome de chuva.

Aurélio, me explique: fome. s.f. Necessidade de comer, causada pelas contrações do estômago vazio: tenho fome.

Sim, como é amarga a fome da saudade e minha saudade mora tão longe... mora num tempo perdido da infância, quando todos os livros eram maravilhosos e ninguém mentia, quando eu ria apenas quando eu realmente queria e eu podia chorar. Minha fome cresceu e quanto mais como, mais me sinto vazio, pois a fome devora como o escuro, como o olhar perdido das pessoas perdidas esperando a morte no hospital, como as crianças sem futuro, como os desiludidos do amor. Como os pastores e suas cabras estúpidas, como o estúpido que me encara todo dia no espelho. Assim é que a semente da fome cresce nos homens, como um baobá em um planeta pequeno de Saint-Exupéry. Os homens padecem de fome, as mulheres e seus vestidos tem fome, os funcionários públicos e os terceirizados e seus crachás tem fome. Não há ser sobre a terra sem fome, sequer abaixo dela. Todos temos fome.

Todos queremos um prato de comida, um prato de atenção e um guardanapo escrito "Te Amo".

Saciaremos nossa foma servindo uns aos outros, ou a fome se alimentará de nós e das pessoas próximas a nós.

Venter auribus caret


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Como sobrevem a Dor?

Às vezes, ela vem como um sopro frio sobre meus olhos, arrancando à força lágrimas que secam antes de nascerem. Sou uma folha seca, que oscila sobre abismos de sal e fumaça. O mar e o fogo rugem rudes, sutis. Ondas de dor me cercam, sei que sou pequeno e às vezes, sou a pessoa mais difícil de existir. As nuvens oprimem e o céu sangra o sol aos finais das tarde modorrentas. Quando as gaivotas choram suas saudades, o oeste brilha triste, quase esquecido. Corações soluçam em Belfalas, olhos tristes partem sobre o cais. Porque o mundo mudou e tem mudado desde sempre, mas minha alma foi tocada tão pouco que cresci mais do que ela. E hoje, meus sonhos são os mesmos da minha infância, minhas preocupações são as mesmas da minha infância, minhas dores são as mesmas da minha infância, só minha mãos mudaram. Minhas mãos agora são desajeitadas para os brinquedos pequenos e não sentem o mesmo prazer ao sujarem-se de terra, mas guardam a memórias dos lanches furtivos à noite, das pequenas casas erguidas e das formigas mortalmente queimadas. Minhas mãos não são mais inocentes. Agora que minhas mãos andam sempre limpas e as unhas cortadas, tenho vergonha de pensar que elas se macularam ao eventualmente apontar e rir dos outros, meus irmãos humanos. Porque às vezes parece tão difícil andar sobre a terra? Porque minhas perguntas não encontram respostas em nenhum dos muitos livros que leio? Talvez porque, penso agora, seja o momento de escrever minhas próprias respostas com a tinta de meu sangue e parte do suor e lágrimas que derramei ao longo deste caminho.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

2012!

"(...)Experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados, ou seja, viver com uma memória que não serve para nada. Esse próprio passado, sobre o qual refletiam sem cessar, tinha apenas o gosto do arrependimento. Na verdade, gostriam de poder acrescentar-lhe tudo quanto lamentavam não ter feito, quando ainda podiam faze-lo, junto a esse ou àquela que esperavam - assim como a todas as circustâncias, mesmo relativamente felizes, da sua vida de prisioneiros misturavam o ausente, e o resultado não podia satisfaze-los. Impacientes com o presente, inimigos do passado e privados do futuro, parecíamo-nos assim efetivamente com aqueles que a justiça ou o ódio humano fazem viver atrás das grades(..)."

Com este numinoso excerto de Albert Camus em "A Peste", comecemos o ano de 2012 libertos da escravidão do tempo e do deixar tudo para depois. Vivamos enquanto o tempo é nosso, pois o passado não existe mais, o futuro é uma incerteza no horizonte, de modo que só o presenté é, de fato, nosso.


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