quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Como sobrevem a Dor?

Às vezes, ela vem como um sopro frio sobre meus olhos, arrancando à força lágrimas que secam antes de nascerem. Sou uma folha seca, que oscila sobre abismos de sal e fumaça. O mar e o fogo rugem rudes, sutis. Ondas de dor me cercam, sei que sou pequeno e às vezes, sou a pessoa mais difícil de existir. As nuvens oprimem e o céu sangra o sol aos finais das tarde modorrentas. Quando as gaivotas choram suas saudades, o oeste brilha triste, quase esquecido. Corações soluçam em Belfalas, olhos tristes partem sobre o cais. Porque o mundo mudou e tem mudado desde sempre, mas minha alma foi tocada tão pouco que cresci mais do que ela. E hoje, meus sonhos são os mesmos da minha infância, minhas preocupações são as mesmas da minha infância, minhas dores são as mesmas da minha infância, só minha mãos mudaram. Minhas mãos agora são desajeitadas para os brinquedos pequenos e não sentem o mesmo prazer ao sujarem-se de terra, mas guardam a memórias dos lanches furtivos à noite, das pequenas casas erguidas e das formigas mortalmente queimadas. Minhas mãos não são mais inocentes. Agora que minhas mãos andam sempre limpas e as unhas cortadas, tenho vergonha de pensar que elas se macularam ao eventualmente apontar e rir dos outros, meus irmãos humanos. Porque às vezes parece tão difícil andar sobre a terra? Porque minhas perguntas não encontram respostas em nenhum dos muitos livros que leio? Talvez porque, penso agora, seja o momento de escrever minhas próprias respostas com a tinta de meu sangue e parte do suor e lágrimas que derramei ao longo deste caminho.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

2012!

"(...)Experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados, ou seja, viver com uma memória que não serve para nada. Esse próprio passado, sobre o qual refletiam sem cessar, tinha apenas o gosto do arrependimento. Na verdade, gostriam de poder acrescentar-lhe tudo quanto lamentavam não ter feito, quando ainda podiam faze-lo, junto a esse ou àquela que esperavam - assim como a todas as circustâncias, mesmo relativamente felizes, da sua vida de prisioneiros misturavam o ausente, e o resultado não podia satisfaze-los. Impacientes com o presente, inimigos do passado e privados do futuro, parecíamo-nos assim efetivamente com aqueles que a justiça ou o ódio humano fazem viver atrás das grades(..)."

Com este numinoso excerto de Albert Camus em "A Peste", comecemos o ano de 2012 libertos da escravidão do tempo e do deixar tudo para depois. Vivamos enquanto o tempo é nosso, pois o passado não existe mais, o futuro é uma incerteza no horizonte, de modo que só o presenté é, de fato, nosso.


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