quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Considerações sobre a Fome

Tenho fome.

Talvez seja inútil discutir sobre a fome que tenho, a voracidade que sinto, pois a fome é a própria alma do homem. O instinto, o desejo. Despido de rótulo e título, só o que resta é a fome. Trabalho porque tenho fome. Não só a fome que consome a comida, que consome a vida, o tédio, a dor. Minha fome é mais sutil: às vezes um livro, um beijo, um abraço, um arquejo sobre a ponte, uma fome de chuva.

Aurélio, me explique: fome. s.f. Necessidade de comer, causada pelas contrações do estômago vazio: tenho fome.

Sim, como é amarga a fome da saudade e minha saudade mora tão longe... mora num tempo perdido da infância, quando todos os livros eram maravilhosos e ninguém mentia, quando eu ria apenas quando eu realmente queria e eu podia chorar. Minha fome cresceu e quanto mais como, mais me sinto vazio, pois a fome devora como o escuro, como o olhar perdido das pessoas perdidas esperando a morte no hospital, como as crianças sem futuro, como os desiludidos do amor. Como os pastores e suas cabras estúpidas, como o estúpido que me encara todo dia no espelho. Assim é que a semente da fome cresce nos homens, como um baobá em um planeta pequeno de Saint-Exupéry. Os homens padecem de fome, as mulheres e seus vestidos tem fome, os funcionários públicos e os terceirizados e seus crachás tem fome. Não há ser sobre a terra sem fome, sequer abaixo dela. Todos temos fome.

Todos queremos um prato de comida, um prato de atenção e um guardanapo escrito "Te Amo".

Saciaremos nossa foma servindo uns aos outros, ou a fome se alimentará de nós e das pessoas próximas a nós.

Venter auribus caret


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