quinta-feira, 15 de março de 2012

O Mundo de Sophia

O mundo era tépido e macio, povoado pela meia-luz e por palavras abafadas, quase sussurros de Nino e Jéssica dizendo o quanto a amavam, dos tios fazendo vozes idiotas, mas engraçadas, expressando o quanto a queriam ver, de como sua ultrassonografia era linda, de como seu coração batia forte, com vontade de viver. Nos olhos de seus pais, desde cedo brilharam o desejo e a ansiedade; em um, uma alegria sem fim, algo insondável como o adulto que se descobre, se transforma por querer ser assim, atencioso, companheiro. Um pai. E a outra... haverá algum adjetivo para descrever a graça que a mãe transborda quando se percebe mãe? A menina rediviva em mulher. A dor nas costas, nas pernas, uma dor de medo imaginando se será uma boa mãe, uma dor que ama e acolhe o sacrifício como um preço pequeno por ter dentro de si a carne de sua carne, o sangue de seu sangue, o fruto do seu amor.
Os meses intermináveis começaram a enfim se transformar em dias curtos, pensar em você não era mais apenas imaginar... era ver uma barriga enorme crescendo a cada dia e sentir seus chutinhos e sua inquietação para saber o que havia do outro lado, de onde vinha o calor daquelas vozes que a chamavam de filha e te amavam antes mesmo de te conhecer.
Sophia.
Como um sopro morno, seu nome foi concebido. Não mais uma Maria, Joana ou Gabriela. Haveria no mundo mais uma Sophia, aquela que sabe, conhece, investiga. Que sabe o quanto foi amada desde quando era apenas um pequeno grão (tão pequeno quanto o Pequeno Grão que sua mãe foi um dia) e as únicas evidências de que você já existia eram uma listrazinha em um teste de farmácia e a risadinha nervosa dos seus pais.
E foi assim, até que em uma tarde na qual o Sol brilhava forte e as nuvens passeavam vagarosas no céu, você veio ao mundo. Precisaram tirar você de lá porque pelo visto você não queria abandonar seu ninho, mas tinha muita gente querendo te ver! E você veio como o milagre indescritível da vida sempre faz: como um pequeno sonho que brota de nossos anseios, com seus dedinhos de unhazinhas tão pequenas... seus olhinhos e seu narizinho, a boquinha miúda e os lábios carnudos e vermelhos. Perfeita, vermelhinha, faminta. Mas não da fome do leite, apenas. Mas sim a fome de estar perto dos que te amam, tanto, aconchegar-se no colo da sua mãe, sentir seu pai trocando, com um leve desespero, suas fraldas, ouvir os mimos intermináveis de seus avós e as orações que todos sussurram para que você cresça bem, saudável, faminta de conhecimento e plena pelo amor de seus pais.
Sophia, obrigado por ter vindo ao mundo, porque você me faz lembrar que ele continua girando, novas vidas vem à luz e precisamos reafirmar com nós mesmos o compromisso de sermos melhores por aqueles que amamos. E eu te amo, minha pequena sobrinha, porque você faz de seu pai, meu melhor e mais antigo amigo, meu irmão, você faz dele a pessoa mais feliz neste mundo.

segunda-feira, 12 de março de 2012

A Caixa de Pandora

O único imperativo da vida é ser uma eterna surpresa. Acredite você na organização de um poder maior determinístico, acredite neste mesmo poder, contraditoriamente ligado ao livre arbítrio, ou acredite em nada, apenas no caos puro e simples. O fato é que o curso de nossas ações depende de uma cadeia tão grande e intrincada de pequenos eventos, em última instância, aleatórios, que a única genuína surpresa no mundo aconteceria se ele não mudasse. Mas o mundo muda. As pessoas mudam, as amizades mudam e, para o bem ou para o mal, nos moldamos mudando as coisas ao nosso redor.
Mudar é uma palavra difícil e pesada. O único motivo pelo qual suportamos as mudanças é que as genuínas mudanças são lentas, embora inexoráveis. O tempo é a variável da mudança, o tempo e o espaço. E os livros, estes abrem uma ferida no tempo e no espaço: ouvimos as vozes dos mortos e conversamos com universos que jamais existirão. Reforçamos conceitos, valores ou trilhamos pequenos passos para a mudança, porque reconhecemos neles, estas pequenas bestas de papel, nossa própria condição de mutantes. Heráclito disse (ou pelo menos é o que dizem que ele disse) que ninguém pode entrar no mesmo rio duas vezes. Eu, particularmente, nunca tive a oportunidade de entrar em um rio de verdade. Mas entrei em muitos livros diferentes muitas, muitas vezes. Já aconteceu de eu entrar em determinado livro e alguns anos depois, entrar em um livro com o mesmo título, a mesma capa, as mesmas páginas e as mesmas palavras, mas completamente diferente. E hoje, ouvi de alguém completamente improvável que o peso da sabedoria frequentemente nos cobra um pesado tributo da insegurança. Mas o que a sabedoria e a insegurança tem a ver com tudo o que disse antes? A sabedoria, que neste caso estava empregada como racionalidade, não prepara ninguém para a mudança, porque a  a condição sine qua non desta é justamente alicerçar ganhos inesperados em determinadas direções. Ao contrário, a racionalidade tende a tornar nossas opções redutíves a variáveis que perdem parte de seu sentido enquanto conjunto. Toda escolha é um passo mais profundo na mudança e aí, quando percebemos, não somos mais quem costumávamos ser (...nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não...).
E como isso se relaciona com o título deste post? Seja livre para tirar suas próprias conclusões e exercer o direito de escolher a justificativa que faz mais sentido para você.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Blog de cara nova!...

...E a portentosa mão do destino continua a dedilhar indiferente as cordas de nossa vida. Isto, meus amigos, é rock!


Valeu pela homenagem, Rafa!

domingo, 4 de março de 2012

Eu, navegante

Quando eu me cavo eu me surpreendo tanto...
Por isso observo mais do que falo.
Calo. Silencio.
Como a quilha dos navios dos primeiros homens,
deslizo quieto entre as vagas, minha paz é escura como o céu da noite.
Minha voz esconde mais do que mostra, guarda intacta, aguarda.
Uma palavra, um abraço, uma dor de vez em quando.
Ninguém chegará ao meu porto,
As tochas sobre o farol há muito se abandonaram ao vício das próprias chamas.
O sal, a espuma e a água escura cantam roucas serenadas, o vento e as gaivotas assobiam um requiem que só eu conheço e começa com sabor de infância.
Suas vozes são terríveis, mas sábias e verdadeiras. A verdadeira angústia de quem vive é deixar de ouvir o próprio coração.
Por isso observo mais do que falo.
Calo. Silencio
 

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