domingo, 22 de abril de 2012

Under Pressure ou Silenciosa Prece ao sr. Sandman

O reflexo pálido da lua desliza sobre a untuosidade do asfalto negro e a noite é fria e tem cheiro de terra molhada e folhas apodrecendo... o doce cheiro da terra! Assim como caminham as nuvens indolentes pelo veludo negro do céu; na terra só suas sombras caem sobre mim e me lembram que aqui tudo é mais concreto e menos poético. A nous, o impalpável, o inatingível são forças ocultas que sopram com força dentro dos meus ouvidos abertos, dentro de meus olhos e minha boca abertos e enchem minha cabeça de idéias lepidópteras, esvoaçantes, tontas, contra as paredes cerebrais. Eu sou assim. Sou o jovem e o velho. Cedo em minha vida já era tarde demais. Sou um ancião aprisionado em dúvidas juvenis, sou uma máquina, uma lâmina, um barômetro. Em mim, as pressões sociais se acumulam e as palavras trespassam minha minha couraça de serenidade e senilidade. Sou um parafuso, uma roda. O olhar atento sobre o paraíso de Milton, os círculos infernais de Dante e tudo o que a vã filosofia de Horácio não quis acreditar. Pois somos dramas e comédias tão entrelaçadas, tragédias tão bem cosidas, que somos cebolas: cascas dentro de cascas e máscaras sobre máscaras. E o trabalho repousa com suas arestas de granito sobre meus ombros de Atlas. Meus braços são brutos e calejados, mas minha voz é doce, melíflua, refinada, tímida e recatada. Minhas palavras são poucas, mas pari-las dói tanto quanto os sonhos amargos que nos dão sede e nos acordam suados no terror solitário da madrugada (Cthulhu chama, chama e chama). O mundo não é bom nem justo, eu sei. Mas ainda que eu saiba, isto não torna mais fácil minha tarefa de enxergar um caminho seguro neste mar de lama, neste oceano de almas.  Por isso é mais fácil e doce o abandonar-se aos sonhos, à literatura fantástica, ao reino intangível de Morpheus, vulgo Sandman, Lorde Moldador, Oneiros, irmão da Morte e do Desespero, do Delírio e da Destruição. Do Destino. Do Desejo. Lança-me esta areia em meus olhos com força, sopra até que eu durma os sonhos das crianças e não me preocupe tanto. Tudo só faz sentido a quem escreve, tudo é belo, certo e esteticamente justo a quem pare estas palavras, como as mães e os frutos de seus ventres. Como o pintor e o eletricista. Como Whitman e seu corpo elétrico. Durma em paz, Whitman. E faça-me dormir também, Sandman.

domingo, 15 de abril de 2012

O labirinto de Hamlet

Ouça-os gritar e preste atenção nos gemidos lamurientos que sobem dos portões das minas de carvão: eles são os filhos da terra, eles são os filhos e filhas de Zola, contidos nos mistérios minerais das profundas entranhas de sua mãe. Um arquejo, um mergulho no escuro e resta pouco mais do que um oitavo de luz da qual se serve Bastian para achar suas últimas memórias, seu último sonho com as lâminas de Yor, o mineiro cego. Nossa vida será assim, como uma procissão de fantasmas, uma profusão de sangue derramado e desejos insatisfeitos e muitas metas novas, poucas das quais reais o bastante para emprestar significado à busca diária da perfeição. Catarse, catarse, catarse. Vomito estas indolências da insônia porque meus dias são curtos e minha esperança é grande, meus sonhos são do tamanho do meu mundo. E cada vez descubro que o mundo é maior, sempre maior, tudo se dispersa, se ramifica e o universo de expande. Sempre além, sempre adiante, cada passo é uma nova distância, um afastamento da origem, um jogar-se nos penedos escuros do caos. (E a Máscara da Morte Rubra dominava a tudo). A Morte Rubra e seu interminável relógio, seu necrológio das artes arcanas e dos príncipes sacanas, ébrios, tontos, despedaçados a se cercar de muros e concreto contra sua própria condenação. Ou isso, ou os plebeus, os ingratos, os perjuros o cercaram contra o muro das admoestações vazias. Tenho sangue tanto quanto sono, mas a sede de meu sangue é por elocubrações dionísicas que encontro acordado e a sede de meu sono é pelo repouso da mente, a consideração apolínea de que há razão e a razão é pura, bela e harmoniosa. Quem há de passar pelas barreiras de meu pensamento? Quem olhará pela brecha desta sebe para berceber que meu labirinto só tem um corredor, mas muitas portas?

Ninguém, eu digo, ninguém. Uma cama de pregos, aí repousa minha sanidade. Um fosso destinado aos indigentes, aí escondi o que havia de compreensível de mim. Hoje sou uma superfície tranquila de gelo, embaçada, confusa, desfocada. Mas por dentro sou águas claras e morte gelada: este é o preço por toda a verdade, o olho de Wotan, a caixa de Pandora, o fígado sempiterno de Prometeu. Só a procissão dos fantasmas dos filhos da terra e Zola me compreendem, pois sua escuridão é maior que a minha e suas mortes sorumbáticas ecoam a corda secreta do anonimato e vibram os brônzeos sinos da sina do eterno retorno: morrer, cada vez que alguém os ler.

domingo, 8 de abril de 2012

Considerações sobre as Religiões

 É chegado o momento da verdade. Não as verdades pequenas que encontro entre o deslizar silencioso dos ponteiros dos relógios. Aquela verdade mais fundamental que tem o poder de uma revelação estrondosa e ubíqua, que momentaneamente nos faz parar de respirar e pensar sobre qual o significado que nossa vida teve sem aquela revelação em especial. Como o espinho arrancado à carne, a venda aos olhos, as algemas aos pulsos, alguns descobrimentos nos sangram fundo. Alguns, veja só, tocam em fios tão delicados e profundos que pareciam misturados à nossa própria essência. Mas em verdade não é assim. A verdade é que fomos ensinados a pensar de certa forma, e romper com o que queriam que pensássemos seria também romper com todos os que pensavam da mesma forma: os amigos, a família, os colegas e os pares. Tudo o que está dentro da mesma lógica. Ninguém me disse, ninguém jamais, neste 22 anos de existência, mais ou menos 1/4 do que posso esperar viver, nenhum ser humano jamais me disse que os dogmas são justamene isto: dogmas, o que significa um princípio que você tem de aceitar sem discussão, sem prova, sem inteligência que te leve a ele.  Por isso minha doutrinação quando criaça foi tão cruel. É como se vivesse a maior parte de minha vida ignorando um parasita arraigado a mim, que me consomia em dúvida e culpa, porque minha culpa vinha da própria dúvida em saber se aquele parasitinha me sussurrava a verdade.
E vivi meio feliz, meio ignorante, até me dar conta de que existem muito mais parasitinhas diferentes, habitando e coabitando diferentes cabeças, com idéias diferentes sobre o que é certo e errado. E o ovo primordial de onde vieram estes bichinhos, semelhantes e diferentes como o podem ser os nematódeos e os platelmintos, o ovo da superstição, fazia até sentido quando vivíamos nas cavernas longe da luz da razão e do método científico. O fato é que esta fauna exuberante, hoje só encontra sentido em perverter os poucos bons princípios que deles derivaram para perpetuar um comensalismo sem precedentes, uma jihad em espiral de religiões contra religiões e denominações contra denominações... e fomentam a xenofobia, o racismo, a discriminação. O outro fato é que, embora em pequena escala as religiões arquitetem-se de forma harmônica com a maior parte de sua comunidade, em uma escala macrológica, subvertem sua moralidade de acordo com o que é necessário ou desejável à sua própria sobrevivêcia. Os dogmas sobre os quais se assentam, na verdade, não são tão absolutos quando me fizeram pensar... estão sujeitos à intervenção oportuna de novas e sutis interpretações. A religião tem um poder avassalador, que sou realmente tentado a imaginar como Jonh Lennon... um mundo sem religião... sem talibã, sem 11 de setembro, sem o Holocausto, sem a Inquisição, sem a Klu Klux Klan. A religião é uma força enorme, dirigida frequentemente por pessoas sem escrúpulos, ou, na melhor das hipóteses, tão falhas quanto eu ou você. A diferença é que minhas falhas são questionadas e não afetam a vida de milhares de seguidores que, por sua vez, diz respeito a outro milhar de não seguidores de determinada doutrina. Levei tanto tempo para enxergar a clareza deste argumentos e me admoesto sobre os pensamentos e comportamentos pouco humanistas que tive em nome da minha superstição. Minha única desculpa é a ignorância que me vendou de forma tão eficiente, tão absolutamente completa como o grande Irmão de 1984 e a crimidéia subjacente que se instaurou quando precisei pensar, ao invés de entender o enviesado caminho o duplipensar. Saí da Matrix e nunca me senti tão bem, tão satisfeito e tão humano.

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