sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Confesso que bebi :)

O que torna este mundo definitivamente triste é o cinza. Cresci com a ilusão pueril de que o bem e o mal existiam separados, dicotômicos como a luz e a escuridão, o calor e o frio, a felicidade e a tristeza... Mas o mundo tem seguido por caminhos estranhos - há os que riem com as tragédias alheias e os que sofrem por causa do sucesso dos outros. Me ocorre que talvez o mundo tenha sido sempre assim, embora se enfeite o passado, como se lá atrás as coisas tivessem dado certo e, de repente, o mundo estivesse se desviando do bom caminho. A ganância e o egoísmo sempre existiram. O mundo não é realmente Tolkien e Rowling, mas sim George Martin e Cormac McCarthy. O mundo não é José de Alencar, é Luís de Azevedo. O mundo é cinza. Talvez a coisa mais acertada que o pequeno David fará toda a sua vida é esta, sob o efeito de sedativos: This is the real life? Os livros que mais amava me traíram ou, prefiro pensar, me deram a oportunidade de adiar o horrorshow que é o espetáculo dos duplipensantes atuando. Haja moloko nesta vida e viva Kubrick, Burton e Tarantino! Tinha pensado em tanta coisa para dizer sobre isto, mas parece simplesmente inútil acrescentar mais algo. Isso, basicamente, é o Demian de Hesse. :-/

domingo, 7 de outubro de 2012

O sono da razão desperta monstros

Tanto tempo sem escrever, porque a vida é um teatro de sombras. Se nos escondemos, se nos escondermos, se escondidos estamos, nossa sombra nos trai. Se o medo assusta, ainda assim a vida continua indiferente à dor dos desvalidos, dos enfermos, dos órfãos de esperanças. Sou silêncio porque falar é tolice em um teatro de sombras. Minhas manhãs são árduas, pois a decisão que pesa sobre minha cabeça a cada manhã, cada louca manhã, cada manhã de insanidades neste mundo, a decisão é também a pergunta mais antiga e ancestral de nossos âmagos: porque vivo? Tergiverso em verso e prosa porque, assim, quando estamos doentes é como se estivéssemos em um plano mais louco, alucinante, as idéias combalem-se, as defesas não defendem, o liquido amniótico, os leucócitos, as vacinas, tudo trai, tudo subverte os próprios princípios e ponho-me a pensar no sol na casa da minha infância, da aranha enorme que escorregava pelo muro no jardim, dos pés de manga e dos morros escorregadios, as lembranças mais antigas que possuo. E sombras de sonhos com rodas d'água e serpentes deslizando pelos rios, memórias ainda mais antigas ou réplicas de sonhos tão antigos quanto.

E se falo de sonhos, tenho falar de Morfeu, lorde moldador, Oneiros, o grande perpétuo, o trilhador dos caminhos descobertos, o figurante dos pesadelos do devorador, aquele que tem dentes em lugar de olhos. Percebo que eu sou ele quando me perco nos meus próprios devaneios à frente do espelho. Meus olhos são escuros quando ponho-me concentrado a enxergar o poço de loucura que são estes vitrais. As palavras se perdem em labirintos que foram traçados para pensamentos. Pois como poderão elas chegar ao outro lado para expressar algo que é só sensação, perda, alvitre e loucura?

Caminhei durante algum tempo pela senda da lucidez até perceber que ninguém está lúcido: todos jogam o mesmo faz de conta da felicidade enquanto eu me despedaçava para ver o mundo tal como sempre fora: justo e cheio de luz, os santos e anjos a proteger os humildes e os servos. Mas não. Demian. Este é o nome da linha cataclísmica que separa a inocência da verdade, a pureza da realidade, a luz e trevas do cinza confuso que é este mundo. Não compartilho Demian, porque Demian, ou qualquer outro nome que lhe dêem, será descoberto por cada um a seu tempo. Ou não.

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