domingo, 30 de dezembro de 2012

Seguindo

O mundo não acabou, mas as pessoas insistem em dizer que o ano está acabando. Que 2012 está ficando pra trás e 2013 assoma no horizonte como uma promessa de dias melhores, regimes que serão cumpridos, mais dedicação ao trabalho, à escola, mais leitura e menos stress. Eu acho um pouco ridículo (antes achava só deprimente) se arvorar com expectativas de recomeços, novas chances, quando nada acabou, nada morreu. A vida só continua. Atribuímos demasiada importância a estas grandes mudanças: "virada" de ano, aniversários, feriados que comemoram atualmente o ócio coletivo com base em referências brumosas do passado. As mudanças que importam de verdade, são aquelas que forjamos lentamente dentro de nós mesmos, a ponto de se passarem cinco, dez, vinte anos da sua vida e perceber o quanto você mudou - pra melhor ou pra pior. Não digo isto de forma maniqueísta - ser bom ou mau, afinal de contas, o maniqueísmo, assim como tantas outras bobagens da cultura ocidental permanece como um conceito. Mesmo passados milênios, as pessoas ainda pensam que é uma questão de escolha imutável ser ética e moralmente "bom" ou "mau". Assim, o simbolismo da ressurreição - saudoso Campbell - apresenta um perigo real, de transferir o que é mito para o campo da realidade, sobretudo de uma realidade já ameaçada  pela virtualidade, pelos encurtamentos de distância e pelas cavernas de Platão das redes sociais. Pensar que o ano novo é uma oportunidade de recomeço pode nos escravizar à noção de que temos de arrancar parte de nós para satisfazer a expectativas irreais que criamos em nome do simbolismo. Eu prefiro a vida dos simples, a vida de cada dia que não espera o futuro com remorso ao contemplar o passado, como Whitman: "E não há nenhum negócio ou ocupação em que o jovem não possa se tornar um herói/ E não há nenhum objeto tão delicado que não possa servir de eixo para a roda que gira este universo/  E que todo homem ou mulher se mantenham calmos e serenos diante de um milhão de universos".
Vou seguindo, feliz, sem recomeços, sem expectativas, sem decepções: tudo depende de como se enxerga.

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